Me perguntam com frequência por que escolhi a cirurgia vascular — às vezes com admiração, às vezes com aquele olhar de quem acha que eu escolhi o caminho mais difícil. E a resposta mais honesta que eu tenho é meio desconcertante: eu amo a especialidade exatamente pelos motivos que a tornam difícil. O que é bonito e o que é duro, na cirurgia vascular, são a mesma coisa — só muda o ângulo por onde você enxerga.
Deixa eu começar pelo que é ótimo.
O que é bonito
A cirurgia vascular é, ao mesmo tempo, delicada e grandiosa. São operações complexas, de precisão fina, em que milímetros importam — e, ao lado disso, um campo em plena transformação tecnológica. As técnicas endovasculares mudaram o que é possível: hoje a gente trata, por dentro dos vasos, doenças que antes exigiam cirurgias enormes, e isso não para de evoluir. É uma especialidade que te obriga a continuar estudando a vida inteira, e eu gosto disso.
Mas o que mais me move é outra coisa. Fui aos poucos delineando as minhas escolhas para seguir trabalhando com urgência e emergência — e são procedimentos transformadores, feitos em situações de grande risco, que muitas vezes definem se o paciente vai sobreviver ou não a uma doença grave. Existe uma beleza difícil de explicar em estar nas situações decisivas e poder inclinar essa balança para o lado certo. Quando dá certo, é das coisas mais profundas que eu conheço.
O que é difícil
Agora vem a parte que eu faço questão de contar com honestidade, porque acho que quem pensa em seguir a especialidade merece ouvir. As desvantagens da cirurgia vascular são exatamente as mesmas vantagens, vistas por outro ângulo.
Essa mesma urgência que me encanta cobra dedicação e abdicação. Emergência não escolhe hora: são noites, finais de semana, planos desfeitos, uma vida organizada em torno de estar disponível quando alguém precisa. E há um peso a mais em fazer isso num país como o nosso, onde os pacientes chegam com pouca educação em saúde e ainda menos acesso — muitas vezes tarde, quando a doença já avançou, quando o caminho já é mais estreito do que precisaria ter sido.
O que é bonito e o que é difícil, na cirurgia vascular, são a mesma coisa. Só muda o ângulo por onde você enxerga.
E tem a parte mais dura de todas: nem sempre a gente consegue. Às vezes tentamos o impossível em casos muito complexos e não alcançamos o que esperávamos — ou o que o paciente precisava. Aprender a conviver com isso é uma habilidade que estamos constantemente desenvolvendo, e precisamos abraçar os erros assim como abraçamos os acertos para seguir em frente.
E preciso dizer com todas as letras: nada disso é obrigatório. Você pode escolher uma vida completamente diferente da minha, e está tudo bem. Como em toda especialidade, aqui existem muitos caminhos possíveis. Tenho colegas extremamente talentosos que não trabalham com nada disso que eu descrevi — se dedicaram a outros campos da cirurgia vascular, que têm os seus próprios desafios e as suas próprias gratificações. A cirurgia vascular é uma subespecialidade, sim, mas também é uma grande área, com espaço para escolhas muito diferentes — e cada uma delas é legítima.
Então, por que escolher
Escolhi mesmo assim. Escolhi porque, pra mim, o peso e o sentido vêm no mesmo pacote — não dá para ter um sem o outro. A entrega que a especialidade exige é a mesma que a torna capaz de transformar uma vida numa única madrugada. Se você está pensando em seguir esse caminho, é isso que eu diria: não escolha a cirurgia vascular apesar da dificuldade. Escolha porque a dificuldade e a beleza são inseparáveis.
