Quem trabalha comigo sabe que eu carrego uma fama: sou pé frio. Não adianta discutir — os plantões que eu pego costumam ser os mais movimentados. E meus amigos que não são da medicina lembram bem de um ano específico, em que me dediquei à preceptoria no Hospital das Clínicas e vivia de sobreaviso, pronta para correr no meio da noite. O motivo daquelas corridas era quase sempre o mesmo: um aneurisma de aorta que tinha rompido.

O aneurisma de aorta roto é uma das cenas mais graves com que a gente lida. E, toda vez, sobrava a mesma sensação incômoda: aquilo, quase sempre, poderia ter sido evitado. Não pela cirurgia da madrugada — mas por um gesto simples, feito meses ou anos antes, por alguém que tivesse pensado no diagnóstico.

Uma dilatação que cresce em silêncio

A aorta é a maior artéria do corpo. Um aneurisma é uma dilatação da sua parede — e, quando essa dilatação acontece na porção abdominal e ultrapassa cerca de 3 cm, temos um aneurisma de aorta abdominal. O problema é o modo como ele cresce: devagar, sem dor, sem aviso. A pessoa convive com ele por anos sem saber.

Até o dia em que a parede não aguenta mais. A ruptura é uma catástrofe hemorrágica: boa parte dos pacientes não chega ao hospital a tempo, e mesmo os que chegam enfrentam uma cirurgia de altíssimo risco. Compare isso com o outro cenário — o aneurisma descoberto antes, ainda íntegro, tratado de forma programada, com risco baixo. A distância entre essas duas histórias é, quase sempre, um diagnóstico feito a tempo.

Ir atrás dela é meio caminho

Como é uma doença silenciosa, ela não vem até nós — nós é que precisamos ir atrás dela. E isso se resume a duas atitudes que cabem em qualquer consulta.

A primeira é rastrear quem tem risco. O retrato clássico é bem definido: homem, acima dos 65 anos, tabagista ou ex-tabagista — o tabagismo é o principal fator de risco. Nesse perfil (e também diante de história familiar), vale lembrar de investigar, mesmo que a queixa da consulta seja outra. Um ultrassom de abdome, barato, rápido e sem radiação, resolve a pergunta.

A segunda é ainda mais simples, e é a que eu insisto com todo residente: examinar o abdome. Colocar a mão, palpar, procurar uma massa pulsátil e expansiva acima da cicatriz umbilical. Não custa nada e não pede tecnologia nenhuma — só a lembrança de fazer.

O aneurisma perigoso costuma ser grande. E o grande costuma ser palpável. Muitas vezes, tudo que falta é a mão no abdome.

Vale a honestidade sobre os limites: a palpação não é um teste perfeito. Em abdomes mais volumosos ela perde sensibilidade, e um exame normal não exclui o aneurisma — a confirmação é sempre por imagem. Mas a lógica joga a favor de quem examina: os aneurismas que mais importam, os grandes e os sintomáticos, são justamente os mais palpáveis. Um aneurisma que já dá sintomas — dor abdominal ou nas costas somada a uma massa pulsátil — raramente é pequeno, e deve ser tratado como uma urgência, porque pode significar expansão ou ruptura iminente.

Na prática, para quem está treinando

  • Rastreie o perfil de risco: homem, 65–75 anos, que fuma ou já fumou — e considere história familiar de aneurisma.
  • Examine o abdome sempre: palpe acima do umbigo procurando uma massa pulsátil e expansiva (que empurra os dedos para os lados, não só para cima).
  • Exame normal não exclui: a sensibilidade cai em abdomes obesos — na dúvida ou no perfil de risco, peça o ultrassom.
  • Aorta abdominal ≥ 3 cm define o aneurisma; o acompanhamento é ditado pelo diâmetro.
  • Sinal de alarme: dor + massa pulsátil = urgência (expansão ou ruptura), até prova em contrário.
  • Reparo eletivo costuma ser indicado por volta de 5,5 cm no homem (um pouco antes na mulher), por crescimento rápido ou quando sintomático — por via endovascular (EVAR) ou aberta.
  • Atenção redobrada com mulheres: menos contempladas nas diretrizes e com ruptura em diâmetros menores — valorize o exame e tenha limiar mais baixo para imagem, sobretudo com história familiar.

Prefiro acreditar que não sou pé frio de verdade. Que aqueles plantões só me mostraram, cedo e de perto, o preço de uma doença que passa despercebida — e me deixaram uma convicção que carrego até hoje: o aneurisma cresce em silêncio, mas, na maioria das vezes, dá para encontrá-lo a tempo. Basta alguém, lá atrás, lembrar de procurá-lo — pensar no diagnóstico, rastrear o perfil de risco, pôr a mão no abdome. Que esse alguém seja você.