Não existe um único valor de “colesterol normal”. A meta depende do risco de cada paciente — e conhecê-la pode mudar a evolução da doença vascular.

Muitas vezes o paciente chega à consulta com exames pedidos por outro profissional e pergunta: “Doutor(a), ainda preciso tomar esse remédio para o colesterol? Esse resultado está bom?”

É nosso papel saber responder. Na cirurgia vascular, o LDL não é “assunto do cardiologista”: ele influencia diretamente a progressão da doença que tratamos.

Primeiro: o que é LDL?

Quando o exame mostra “LDL”, parece que falamos de um tipo de colesterol. Na verdade, são coisas diferentes. O colesterol é uma molécula lipídica essencial ao organismo e, como não circula livremente no plasma, é transportado dentro de partículas chamadas lipoproteínas.

LDL vem de low-density lipoprotein (lipoproteína de baixa densidade). Essas partículas transportam colesterol pelo organismo e têm papel central na aterosclerose: partículas contendo apoB atravessam o endotélio, ficam retidas na parede arterial e desencadeiam a formação e a progressão da placa.

Por isso, o “LDL” do exame é, mais precisamente, o LDL-C: ele estima quanto colesterol está sendo transportado dentro das partículas de LDL — não quantas partículas existem.

O HDL (high-density lipoprotein) também transporta colesterol, mas no sentido inverso: leva o colesterol dos tecidos de volta ao fígado (o transporte reverso). Daí a conhecida simplificação de LDL como “colesterol ruim” e HDL como “colesterol bom”.

Primeira lição prática: não existe um valor de LDL “normal” para todos — a meta depende do risco cardiovascular de cada paciente. E a diretriz de 2026 reforça um conceito central: quanto menor a exposição às lipoproteínas aterogênicas, e quanto mais cedo reduzi-la, menor o risco. O que pesa não é só o LDL de hoje, mas a exposição acumulada ao longo da vida.

Na prática, o paciente cai em um de dois perfis.

Perfil 1

Paciente com doença aterosclerótica manifesta

É o paciente que já teve infarto, AVC ou tem doença arterial periférica, carotídea ou outra manifestação de aterosclerose. A doença já apareceu. A pergunta seguinte é: ele é de altíssimo risco?

De forma simplificada, é altíssimo risco quando há:

  • múltiplos eventos cardiovasculares maiores, ou
  • um evento maior associado a múltiplos fatores agravantes.

Eventos maiores: infarto, síndrome coronariana aguda recente, AVC isquêmico e doença arterial periférica sintomática.

Agravantes: idade ≥65 anos, diabetes, hipertensão, tabagismo atual, doença renal crônica, hipercolesterolemia familiar, revascularização prévia e LDL persistentemente elevado apesar do tratamento.

Altíssimo riscoLDL < 55 mg/dL
Doença manifesta, sem critérios de altíssimo riscoLDL < 70 mg/dL
Um ponto especialmente importante para nós: a doença polivascular eleva muito o risco. O paciente com aterosclerose em múltiplos territórios — coronárias e membros inferiores, por exemplo — merece tratamento particularmente intensivo, e quase sempre tem meta < 55.
Perfil 2

Paciente sem doença aterosclerótica manifesta

Aqui entramos em prevenção primária: a doença ainda não apareceu, e o trabalho é estimar a chance de ela aparecer. Isso se faz somando os fatores de risco — idade, sexo, tabagismo, pressão arterial, diabetes, colesterol e função renal. A diretriz usa o escore PREVENT, que estima o risco cardiovascular em 10 anos.

Alto risco (≥10%)LDL < 70 mg/dL
Risco intermediário (5 a <10%)LDL < 100 mg/dL
Risco limítrofe (3 a <5%)LDL < 100 mg/dL
Ou seja: o mesmo alvo de LDL < 70 pode aparecer em situações diferentes — na prevenção secundária ou em quem ainda não tem doença, mas tem risco cardiovascular elevado.

O LDL é o principal alvo — mas não conta toda a história

Em alguns pacientes — sobretudo com diabetes, síndrome metabólica ou triglicerídeos elevados — o LDL pode subestimar a carga de partículas aterogênicas. Nesses casos, dois marcadores ajudam:

  • Não-HDL — o colesterol presente no conjunto das partículas aterogênicas, não só no LDL. É simples de obter: colesterol total menos o HDL.
  • ApoB — cada partícula aterogênica contém uma molécula de apoB. Por isso, enquanto o LDL-C informa quanto colesterol está sendo transportado nas partículas de LDL, a apoB estima quantas partículas aterogênicas estão circulando.

Isso importa porque o paciente pode ter muitas partículas, cada uma carregando relativamente pouco colesterol: o LDL-C parece adequado, mas a apoB permanece elevada.

Na prática: LDL na meta, mas com triglicerídeos elevados, diabetes ou síndrome metabólica? Vale conferir o não-HDL e, quando indicado, a apoB antes de considerar o risco residual bem tratado.

A meta define a intensidade do tratamento

A base continua sendo a estatina, em intensidade adequada ao risco. Quando ela não basta para atingir a meta, associa-se ezetimiba, ácido bempedoico, inibidores de PCSK9 ou inclisirana — escolhendo a estratégia conforme a redução adicional de LDL necessária. O objetivo não é “prescrever uma estatina”; é fazer o paciente chegar à meta.

Por que isso importa tanto na cirurgia vascular

Porque muitos dos nossos pacientes têm aterosclerose extensa e frequentemente polivascular. Neles, reduzir bem o LDL não previne só infarto e AVC: reduz também eventos adversos nos membros, novas revascularizações e amputações. Tratar o colesterol também é proteger a perna.

Para levar para a próxima consulta

Quando o paciente trouxer o perfil lipídico:

  1. Já tem doença aterosclerótica? Defina se é de altíssimo risco e mire LDL < 55 ou < 70 mg/dL.
  2. Não tem doença manifesta? Estime o risco cardiovascular e defina a meta — em geral < 70 ou < 100 mg/dL, conforme o perfil.
  3. O LDL chegou à meta? Se não, intensifique. Se houver diabetes, hipertrigliceridemia ou síndrome metabólica, considere também não-HDL e apoB.

O perfil define a meta. A meta define o tratamento.

Na próxima vez que o paciente perguntar “meu colesterol está bom?”, talvez a melhor resposta seja outra pergunta: “bom para quem? Qual é a sua meta?”

As metas apresentadas são gerais e devem ser individualizadas. Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui a avaliação médica.