As duas técnicas resolvem o problema e têm resultados de longo prazo parecidos. A diferença que o paciente mais sente está nos primeiros dias.
Muita gente chega ao consultório com a mesma dúvida: “ouvi dizer que hoje dá para tratar a safena com laser, sem cirurgia. É verdade? É melhor?” A resposta curta é: sim, dá — mas “melhor” depende do que a gente está comparando.
Antes: por que a safena é tratada?
A veia safena é uma das veias que levam o sangue das pernas de volta ao coração. Ela tem válvulas que impedem o sangue de descer de novo. Quando essas válvulas falham, o sangue reflui e se acumula — é o refluxo, a causa das varizes, do inchaço, do peso e do cansaço nas pernas. Quando a safena doente é a origem do problema, o tratamento consiste em tirá-la de circulação. E aí existem dois caminhos.
Dois caminhos — e os dois funcionam
Vale dizer isto com clareza, porque gera muita confusão: não existe um caminho “certo” e um “ultrapassado”. As duas técnicas são válidas, reconhecidas pelas diretrizes internacionais e têm resultados de longo prazo semelhantes — controlam o refluxo com taxas de recidiva comparáveis ao longo dos anos.
- Cirurgia convencional (safenectomia): por uma pequena incisão, a safena doente é amarrada e retirada. É a técnica clássica, feita há décadas, com resultado consolidado.
- Tratamento endovascular (ablação): guiado por ultrassom, um cateter fino é introduzido por uma punção e fecha a veia por dentro — com calor (laser ou radiofrequência) ou com uma cola médica (cianoacrilato). A veia fechada deixa de conduzir sangue e é reabsorvida pelo corpo com o tempo.
A maior diferença está no pós-operatório precoce
Se o resultado lá na frente é parecido, onde as duas mais se distinguem? Nos primeiros dias. É aí que o paciente costuma sentir a diferença — na dor e no tempo até voltar à rotina.
Na cirurgia convencional, a dor e os hematomas tendem a ser um pouco maiores no início, e a volta às atividades leva de alguns dias, podendo se estender a cerca de duas semanas. No tratamento endovascular, a dor costuma ser menor e o retorno à rotina, mais rápido. No longo prazo, como já dito, os dois caminhos chegam a um resultado semelhante.
É por essa recuperação inicial mais leve que as diretrizes atuais costumam preferir a ablação endovascular como primeira opção quando ela é tecnicamente adequada. Não porque a cirurgia “pare de funcionar”, mas porque, chegando ao mesmo destino, o caminho endovascular tende a ser mais confortável nas primeiras semanas.
Então a cirurgia ficou para trás?
Não. A cirurgia convencional continua sendo uma excelente opção — e, em algumas situações, a mais indicada. A escolha depende de coisas que só a avaliação com ultrassom mostra: o calibre e o trajeto da safena (veias muito largas, tortuosas ou muito superficiais podem favorecer uma ou outra técnica), a anatomia das varizes, outras condições de saúde e também a disponibilidade e o custo. Em muitos casos, as técnicas são até combinadas na mesma perna.
A safena vai fazer falta?
É a pergunta mais comum — e a resposta tranquiliza: não. Por dois motivos.
Primeiro, a safena que tratamos já não está trabalhando direito. Com as válvulas falhando, ela deixou de levar o sangue para cima e passou a deixá-lo refluir e se acumular na perna. Ou seja: ela já virou parte do problema, não da solução. Tirá-la de circulação melhora o retorno do sangue — não piora.
Segundo, a maior parte do sangue das pernas não volta pela safena. Ela pertence ao sistema venoso superficial, que responde por uma fração do retorno; a maior parte (cerca de 90%) sobe pelas veias profundas, mais calibrosas, dentro da musculatura. Quando essas veias profundas estão saudáveis — o que se confirma no ultrassom antes do procedimento —, a perna compensa muito bem a ausência da safena doente. Por isso tanto a cirurgia quanto o endovascular podem, com segurança, retirá-la ou fechá-la.
Uma dúvida que às vezes aparece: “mas não vão precisar da safena para uma eventual ponte no coração?” Três pontos ajudam a tranquilizar. Primeiro, uma safena doente, dilatada e com refluxo em geral não serve como enxerto de qualquer forma. Segundo, ela não é o único vaso disponível: o coração pode ser revascularizado com outras artérias — a artéria mamária (torácica interna), que é inclusive a preferida pela durabilidade, a artéria radial, entre outras. E, terceiro, hoje muitas lesões cardíacas nem exigem cirurgia: são resolvidas por dentro, com stents (angioplastia). Ainda assim, é um ponto que o cirurgião pondera caso a caso antes de indicar o tratamento. E o item mais importante aqui é: você só precisa tratar a sua safena se ela for dilatada, insuficiente, e te trouxer sintomas.
O resumo honesto: as duas técnicas tratam bem a safena e envelhecem de forma parecida. O endovascular costuma oferecer um pós-operatório precoce mais tranquilo; a cirurgia segue sólida e, em certos casos, preferível. A melhor escolha é a que se encaixa na sua veia e na sua vida — e isso se define na consulta, com o exame na mão.
A pergunta certa não é “laser ou cirurgia?”, e sim: “qual das duas é a melhor para a minha safena e para a minha rotina?”
Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui a avaliação com um cirurgião vascular. A indicação de tratar — e de qual técnica usar — é sempre individualizada, após exame clínico e ultrassom (eco-Doppler).
Fontes
- Society for Vascular Surgery / American Venous Forum / AVLS — Clinical Practice Guidelines for Varicose Veins (2022), Parte I
- SCAI 2025 — Clinical Practice Guidelines for the Management of Chronic Venous Disease
- Clinical effectiveness and patient-reported outcomes of endovenous ablation and surgical stripping — revisão sistemática
